Novo projeto

Passo aqui depois de vários meses para avisar que agora eu dedico meu escasso tempo na frente do computador a outro projeto. Criei um site/blog sobre maternidade sustentável e é lá onde eu publico meus textos atualmente. Para quem tiver interesse, segue o endereço: http://ecomaternidade.com.br/

Ao contrário daqui do Abrindo a Despensa, onde eu nunca nem disse meu nome e muito menos coloquei uma foto minha por pura vergonha, o Eco Maternidade tem nome e foto! Ou seja, minha vergonha foi reciclada e virou uma tremenda cara de pau, pois o site tem até página no Facebook! ☺

Como alimentação continua a ser meu assunto preferido, ainda escrevo muito sobre o tema, ainda que com foco em alimentação na infância.

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Vinagre balsâmico de Modena: o verdadeiro e o falso

Você sabia que o vinagre balsâmico de Modena que se encontra facilmente nos supermercados hoje em dia é, na verdade, uma imitação barata de um produto antiquíssimo, cuja produção é controlada pelo governo italiano e pela União Europeia? Apesar de as embalagens frequentemente conterem termos como ‘antiqua’, ‘gran deposito’, ‘gran riserva’, etc, passando a impressão de estarmos comprando um produto tradicional, a tradição acaba aí mesmo, isto é, na embalagem.

Na mesma viagem que nos levou a uma fábrica de queijo parmigiano reggiano, na Itália, eu e o marido tivemos a oportunidade de visitar um museu dedicado ao vinagre balsâmico, localizado na cidade de Spilamberto, na província de Modena, região Emilia-Romagna, no norte do país.

Entrada do Museo del Balsamico Tradizionale, Spilamberto, Emilia-Romagna, Itália. Foto: acervo pessoal.

Entrada do Museo del Balsamico Tradizionale, Spilamberto, Emilia-Romagna, Itália. Foto: acervo pessoal.

O simpático museu conta a história da versão original do condimento, isto é, do Aceto Balsamico Tradizionale. Os métodos de produção do vinagre tradicional e da imitação moderna são completamente diferentes. A versão moderna não é somente um vinagre de qualidade mais baixa e, por isso, mais acessível. O vinagre tradicional é produzido a partir da redução do suco de uvas da região, e não a partir do vinho, como outros vinagres. Outra diferença fundamental é que o Aceto Balsamico Tradizionale precisa, necessariamente, passar por um processo de envelhecimento em barris de madeira de, no mínimo, 12 anos, enquanto que a versão moderna do vinagre de Modena fica pronta para comercialização em pouquíssimo tempo. O vinagre tradicional é de consistência densa, sabor concentrado (obtido ao longo do processo de envelhecimento) e de cor marrom forte. À versao moderna, é preciso adicionar corantes (de cor caramelo) e espessantes, para imitar a versao tradicional. Curiosamente, o Aceto Balsamico Tradizionale, ao contrário da versão moderna, não costuma ser usado para condimentar saladas verdes. Com moderação, o vinagre tradicional é usado para condimentar carnes, pedaços de parmigiano reggiano, risotto, entre outras coisas.

Barris usados no armazenamento de vinagre. Foto: arquivo pessoal.

Barris usados no armazenamento de vinagre. Foto: arquivo pessoal.

Existe diferença de preço? Acho que a resposta é óbvia. E a diferença é enorme. Uma garrafinha das mais baratas de Aceto Balsamico Tradizionale custa cerca de 150 dólares
. É bem caro. Mas, como é para ser usado parcamente, dura muito tempo.

Exemplos de madeiras usadas na fabricação de barris. Foto: acervo pessoal.

Exemplos de madeiras usadas na fabricação de barris. Foto: acervo pessoal.

Vale muito a pena visitar o Museo Del Balsamico Tradizionale e a região da Emilia-Romagna. Além de ser o berço do vinagre balsâmico original e do queijo parmigiano reggiano, a Emilia-Romagna é também o local de origem do famoso presunto cru italiano, o prosciutto di Parma. Infelizmente, não tivemos tempo de ir a Parma nessa viagem que fizemos ao norte da Itália. Temos aí um motivo para voltar à região!

Alimentos orgânicos são melhores do que os convencionais? Perguntemos às moscas!

A pergunta provocativa do título do post foi feita pela adolescente Ria Chhabra como parte de um projeto para a feira de ciências de sua escola de ensino médio em Dallas, Texas. De acordo com este artigo do New York Times, a inspiração de Ria surgiu após presenciar uma discussão dos pais sobre o preço dos orgânicos.

O projeto original teve muitos desdobramentos, a menina passou a integrar a equipe do laboratório de uma universidade local, teve artigo publicado em revista científica, concorreu a prêmios, etc.

A pesquisa de Ria, que compara a saúde de moscas submetidas a uma dieta com alimentos orgânicos com a saúde de moscas submetidas a uma dieta composta por alimentos convencionais, mostra que as moscas do grupo da dieta orgânica se deram bem melhor do que as moscas do outro grupo. A investigação mediu fertilidade, resistência a estresse e longevidade! Não se sabe, ainda, se a diferença entre os dois grupos se deu por efeitos de pesticidas e fungicidas aplicados aos alimentos convencionais ou por níveis mais altos de nutrientes nos alimentos orgânicos. Também não se sabe, ainda, se os resultados podem ser aplicáveis à saúde do ser humano, mas a pesquisa de Ria forneceu evidências suficientes para que seus pais parassem de discutir sobre os preços dos orgânicos! ☺

O pirulito da discórdia

No verão de 2011, viajei com o marido e uns amigos para o Shenandoah National Park, no estado da Virginia, a cerca de uma hora de Washington DC. Ficamos todos hospedados em um hotel dentro do parque, o Skyland Resort. O hotel possui restaurante, mas nenhuma refeição está incluída na diária, nem mesmo o café da manhã. Na manhã seguinte à nossa chegada, um episódio que já rendeu muita conversa aconteceu após tomarmos café da manhã. A conta da refeição deve ser paga em um quiosque na porta do restaurante. Além de ponto de pagamento, o quiosque é também um café, servindo bebidas quentes, frutas e alguns pães. Estava na fila para quitar a conta com uma amiga e sua filha, que na época tinha cerca de três anos. Ao chegar no caixa, avistamos um enorme ‘porta-pirulitos’, que estava, obviamente, também no campo de visão da pequena de três anos. Preciso dizer qual foi a reação da menina? Com muita dificuldade, conseguimos pagar pelo café da manhã sem pagar também por um pirulito. Ao longo do dia, no entanto, o assunto voltou inúmeras vezes. A menina insistiu tanto para ganhar um pirulito que a mãe acabou cedendo e comprando um.

Minha amiga é uma mãe bastante consciente da importância de uma boa alimentação para sua filha. As refeições são quase sempre preparadas em casa e o acesso a doces e besteiras de modo geral é bastante controlado. Não estávamos em uma loja de doces nem em um supermercado.

Contei esta história a alguns amigos. O episódio sempre acaba virando uma discussão ‘filosófica’ sobre a presença do porta-pirulitos no balcão do quiosque. É ético o quiosque/café do hotel onde estávamos hospedadas colocar o porta-pirulito no balcão por onde todos que fazem refeição no restaurante têm que passar? O porta-pirulitos deveria ou não estar disponível ao lado do caixa?

As opiniões de quem ouve a história são variadas. Tem gente que acha que cabe aos pais, somente a eles, controlar seus filhos em uma situação como essa. Tem gente que acha que a prática de expor doces em estabelecimentos comerciais deveria ser controlada. Isto é, deveria haver alguma regulamentação protegendo os consumidores.

Sempre acho as conversas interessantíssimas. Considerando o histórico do blog, não é difícil imaginar que me encaixo no grupo dos que acham que o porta-pirulitos deveria passar LONGE do balcão do quiosque. Sei que muita gente acha a ideia absurda e impraticável. Talvez esteja sendo ingênua mesmo. Mas prefiro pensar que, na verdade, estou antecipando uma situação que, no futuro, será real. Há pesquisas sugerindo que o açúcar não é somente uma caloria desprovida de nutrientes e causador de cáries, como muitos já sabem. O açúcar seria em si é um veneno.

Segundo Robert Lustig, especialista em obesidade infantil da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, há cada vez mais evidências de que o açúcar pode desencadear processos que conduzem à toxicidade hepática e várias outras doenças. A ideia é que o impacto do consumo excessivo de açúcar na saúde do ser humano vai além de fornecer calorias vazias que consumimos em excesso e nos fazem engordar. O açúcar induziria todas as doenças associadas à síndrome metabólica, incluindo hipertensão, resistência à insulina, altos níveis de triglicerídeos e diabetes. A obesidade não seria a causa, como muitos acreditam, de diabetes, hipertensão, etc, e sim um marcador de disfunção metabólica, ainda mais predominante que a obesidade. Lustig é defensor da regulamentação do açúcar, assim como o álcool e o cigarro são regulamentados. Além das questões de toxicidade citadas acima, Lustig menciona outros argumentos para justificar sua posição, como, por exemplo, o impacto negativo do açúcar na sociedade, em função dos altos custos econômicos, de assistência médica e humanos associados à síndrome metabólica.

Para mais informações sobre os argumentos de Robert Lustig, leia este artigo da New York Times Magazine, este da Eating Well ou este da Connect Well (todos em inglês).

Amamentação – maximizando as chances de uma experiência bem-sucedida

Prometo que não vou falar de alimentação infantil para sempre, mas não poderia deixar de escrever sobre amamentação. Afinal, amamentação é um tópico que tem facetas sociais, políticas e até mesmo ambientais, e a interface entre alimentação e as áreas acima é justamente o foco do blog. Pretendo escrever uma série de posts sobre o assunto, mas hoje começo com um relato sobre a minha experiência pessoal.

Nunca tive a menor dúvida de que optaria por amamentar meu filho. Mas, assim como na escolha do tipo de acompanhamento pré-natal e do parto desejado, ter acesso à informação de qualidade é muito importante para uma experiência de amamentação bem sucedida. Eu tive a sorte de contar com o super apoio do Breastfeeding Center de Washington DC quando ainda estava grávida. Fundado há muitos anos por uma enfermeira especializada em aleitamento materno, esse centro de amamentação a poucos quarteirões da Casa Branca faz um trabalho maravilhoso: oferece diversas aulas para antes e depois do nascimento do bebê e atendimento particular com consultoras de amamentação para mães e bebês com alguma dificuldade, além de ter uma lojinha com vários itens de suporte ao aleitamento materno (almofada, sutiãns, roupas, entre outros).

Felizmente, tenho conseguido amamentar o Eduardo com facilidade, sem recorrer a leite artificial e mamadeiras. Uma boa parte dessa experiência positiva eu credito ao centro de amamentação de Washington. As aulas a que assisti antes de o Eduardo nascer me deixaram confiantes de que estava agindo da maneira certa nos primeiros dias de vida do pequeno. Aprendi que não podia esperar uma quantidade grande de leite logo na primeira semana. Para deixar isso bem claro, cada gestante sai da aula básica com uma colheirinha bem pequena (equivalente a uma colher de café), que é a quantidade de leite que um recém-nascido precisa no início da vida (a quantidade necessária vai aumentando gradualmente). Assim, ninguém entra em desespero achando que não tem leite o suficiente. As aulas tratam ainda da importância de deixar o bebê sugando o quanto quiser para que a produção de leite ganhe um pontapé inicial, das habilidades instintivas para mamar com as quais os bebês nascem, da importância de a mãe se alimentar bem, da importância de evitar mamadeira (inclusive com leite materno tirado com bomba) e chupeta durante as primeiras semanas para reduzir o risco de o bebê confundir o bico artificial desses objetos com o bico do peito, entre várias outras coisas.

Além de aulas básicas sobre amamentação, o Breastfeeding Center oferece também aulas de apoio a mães que querem continuar amamentando depois de voltar a trabalhar (licença maternidade nos Estados Unidos não é obrigatoriamente remunerada, então muitas mães têm que voltar a trabalhar muito cedo), aulas de como amamentar o bebê dentro do sling ou outros baby carriers e aulas sobre como usar as diferentes bombas existentes no mercado para extrair leite materno. Até aula para pais (ou para parceiras, avós ou qualquer outra pessoa que estará em contato com a mãe nas semanas seguintes ao parto) o Breastfeeding Center tem! Nessas aulas, enfatizam a importância de dar todo o apoio necessário em casa para que a amamentação seja bem-sucedida, oferendo dicas práticas para ajudar a mãe e o bebê.

O centro também oferece grupos de apoio a mães e seus bebês de acordo com a idade dos pequenos. Comecei a frequentar o grupo de 0 a 4 meses quando o Eduardo tinha apenas 5 semanas. Os encontros semanais contam com a participação de uma consultora de amamentação que tira dúvidas e serve de mediadora de uma conversa gostosa entre mães. Aprendi um bocado nesses encontros e fiz algumas amizades bastante interessantes. Quando o bebê completa 4 meses, se ‘forma’ e passa para outra ‘turma’, a de 4 a 12 meses e, depois, para a turma para bebês a partir de 1 ano.

Alimentação infantil e refeições às cegas

Ando sumida do blog. O motivo são esses pezinhos gostosos da foto acima, que chegaram há quatro meses e revolucionaram a minha vida. O pequeno Eduardo ainda mama exclusivamente no peito, mas, dentro do possível, eu e o marido estamos preparando-o para que tenha uma relação saudável com o alimento e com a hora da refeição. Já o levamos à feira de produtores várias vezes, para que ele possa observar a variedade de cores e formas das frutas e verduras à venda. Temos também uma cestinha de frutas de brinquedo com a qual ele brinca há várias semanas. Outra coisa que fazemos é “incluí-lo” nas refeições sempre que possível. Se o bebê está acordado na hora do café da manhã, do almoço ou do jantar, ele senta em sua cadeirinha de balanço perto da mesa, em vez de ficar deitado em seu tapetinho de atividades. Dessa forma, ele “participa” das refeições e já se acostuma com a ideia de sentar à mesa para comer em família. Esperamos, assim, minimizar as dificuldades comumente associadas à alimentação de crianças e jovens.

Diante da perspectiva de introduzir meu filho ao universo de alimentos sólidos, não consigo deixar de especular sobre o que faz com que muitas crianças não tenham uma relação saudável com a refeição. Será que, ao insistir que nossos filhos criados em centros urbanos comam frutas e verduras em abundância, não estamos pedindo demais? Como esperar que uma criança se alimente daquilo que ela não conhece, isto é, daquilo que ela não vê ser plantado e nem colhido? Ou então esperar que uma criança coma algo que aparece em seu prato sem antes ter aparecido em sua TV, como é o caso dos salgadinhos, nuggets de frango e iogurtes cheios de açúcar e corantes? Em outras palavras, coma esperar que a criança coma brócolis ou cenoura, se esses são alimentos com os quais ela não se identifica? Alguém já viu comercial de abóbora ou couve? Como pedir a nossos filhos que comam algo que é fruto da natureza se muitos de nós estamos totalmente distantes e desconectados da mesma?

Sei que algumas escolas possuem hortas para que as crianças possam conhecer um pouco dos alimentos na prática. Como há poucas coisas no mundo mais cruciais do que se alimentar bem, não seria o caso de incentivar ou até mesmo tornar obrigatória a existência de uma horta em todas as escolas? Não seria a educação alimentar uma disciplina tão importante como português e matemática?

*Além da cestinha de frutas que mencionei acima, há diversos outros brinquedos muito bacanas para a criança se familiarizar com a alimentação saudável. Seguem abaixo alguns exemplos, para diferentes faixas etárias:
– Brinquedos macios para bebês:
. Sacolinha de compras com frutas, verduras e leite
. Cestinha de verduras e legumes
. Cestinha de frutas
– Brinquedos de madeira para crianças maiores:
. Sacolinha com legumes
. Sacolinha com frutas
. Kit com tábua de corte, faquinha, queijos, etc.
. Kit de frutas ‘cortáveis’ e faquinha
. Kit de legumes ‘cortáveis’ e faquinha
. Kit para saladas

Muito Além do Peso – Parte II

O documentário Muito Além do Peso, do qual falei no último post, está agora disponível na internet! São várias histórias tristes, retratadas com muita sensibilidade pela equipe de produção. Apesar de o filme ter como foco a obesidade infantil, tornando-o indispensável para quem tem filho pequeno, acho que o documentário deveria ser assistido por muitos marmanjos que não dão a importância necessária à alimentação.

Para assistir ao filme, clique aqui.

Muito Além do Peso

Muito Além do Peso retrata a obesidade infantil no Brasil e nos EUA. Não assisti ao documentário ainda, mas deixo aqui uma brevíssima reflexão sobre o que me veio à mente ao ver o trailer.

Os americanos costumam ser crucificados pelo mundo (inclusive por muitos brasileiros) pelos altos indices de obesidade no país. Não há a menor dúvida de que esta seja uma questão de saúde pública seríssima nos EUA. O que não deveria acontecer, contudo, é o Brasil não conseguir olhar para o próprio umbigo, deixando de enxergar que estamos indo pelo mesmo caminho do povo que crucificamos. A obesidade infantil no Brasil é realidade, como mostram as estatísticas e como, imagino eu, mostrará o filme Muito Além do Peso.

Clique aqui para saber onde o filme está sendo exibido.

Quando a palavra ‘queijo’ vira um problema semântico e o relato de uma visita a uma fábrica de parmigiano reggiano

Eu tendo a acreditar que várias coisas que atualmente são abominadas por ‘fazerem mal à saúde’ são, na verdade, vítimas de ciência mal-executada e da perda de processos tradicionais de produção. Este seria o caso de pães, ovos e queijos, só para citar alguns exemplos. Como comparar o valor nutricional de pães de fermentação lenta e farinha orgânica, como os lindos pães preparados pela Ana Elisa, do delicioso blog La Cucinetta, com os onipresentes sacos de pães de forma industrializados, invarialmente produzidos a toque de caixa? São todos da família dos carboidratos? Sim. Mas será que nossos organismos os processam da mesma forma? O mesmo pode ser questionado em relação aos ovos, os grandes vilões da onda do ‘colesterol alto’. Será mesmo que um ovo produzido por galinhas de quintal merece tantas recomendações contra seu consumo?

O caso dos queijos não é diferente. Frequentemente abominados em função do ‘alto teor de gordura’, muitos tendem a colocar a infinidade de produtos nos supermercados vendidos sob o rótulo de ‘queijo’ dentro do mesmo saco. Isto é, tratam como se todos esses ‘queijos’ fossem mais ou menos a mesma coisa (com exceção do queijo branco, que costuma ser visto com melhores olhos por conter menos gordura). Mas será que faz sentido esse tipo de tratamento, até certo ponto generalizado, dado aos queijos?

Entrada da Cooperativa Casearia Valtiepido, em Maranello, região da Emilia-Romagna, Itália. Foto: acervo pessoal.

Há uns dois anos, durante uma ida à Itália para ver a família do marido, tivemos a oportunidade de visitar uma fábrica de um dos queijos curados mais famosos do mundo: o parmigiano reggiano. O marido é do sul da Itália, mas resolvemos passar uns dias na região da Emilia-Romagna, no norte do país. Para quem não sabe, é a região onde fica a cidade de Parma e, consequentemente, a região que deu origem ao queijo parmigiano reggiano. Ficamos hospedados na cidade de Bologna, que é uma graça e por si só já vale a visita. Mas não poderíamos deixar de tentar visitar uma das fábricas de parmigiano da região. Um consórcio controla as fábricas do parmigiano autêntico. Durante a visita à Cooperativa Casearia Valtiepido, parecíamos duas crianças em um parque de diversões! Pudemos ver todas as etapas do processo de produção do queijo e terminamos a visita maravilhados com a experiência. É tudo super controlado, desde a produção do leite utilizado na fabricação do queijo, incluindo a alimentação das vacas leiteiras, até a higienização do maquinário e o tempo gasto em cada etapa de produção*. No início da visita, havíamos dito à guia que éramos pesquisadores, mas não comentamos de qual área. No final, havíamos feito tantas indagações que a moça perguntou se éramos pesquisadores da área de alimentos!**

Uma das etapas iniciais na produção do parmigiano reggiano. Foto: acervo pessoal.

Rodas de parmigiano já prontas. Foto: acervo pessoal.

Outros exemplos interessantes de queijos produzidos sob métodos tradicionais são os retratados em uma recente edição do programa Mundo S/A, da GloboNews. O programa trata de dois queijos artesanais brasileiros: o queijo orgânico da Fazenda Nata da Serra, em Serra Negra (SP), o primeiro queijo orgânico do Brasil, e o queijo do senhor Zé Mário, da Fazenda da Canastra, em São Roque de Minas (MG), produzido da mesma maneira há 200 anos. Vale a pena assistir ao programa.

Tanto no caso do parmigiano reggiano, como no caso dos queijos artesanais brasileiros, não há dúvida de que estamos lidando com produtos que devem genuinamente ser chamados de queijo. É justo, então, também chamar de queijo os itens produzidos em massa, muitas vezes cheios de corantes e estabilizantes artificiais? Ou, ainda pior, o que dizer de ‘queijos’ processados, como aquele quadradinho, embalado no papel alumínio, ou as famigeradas fatias embaladas individualmente, tão populares aqui nos EUA, mas já disponíveis no Brasil há alguns anos?

Se ainda resta alguma dúvida de que nem todos os queijos devem ser colocados no mesmo saco, isto é, nem todos os queijos devem ser evitados com o argumento de que ‘fazem mal à saúde’, recomendo darem uma olhadinha na lista parcial de ingredientes de um dos produtos de uma grande marca brasileira:

Ingredientes: Leite reconstituído, queijo tipo Estepe e/ou queijo Danbo e/ou queijo Prato (leite pasteurizado, fermento lácteo, sal refinado, coalho, cloreto de cálcio, corante natural de urucum e conservador nitrato de sódio), queijo processado UHT sabor cheddar (leite reconstituído, queijo tipo Estepe e/ou queijo Danbo e/ou queijo Prato, queijo processado UHT sabor cheddar, água, leite em pó desnatado, leite concentrado resfriado semi-desnatado, manteiga, amidos, concentrado proteico de soro, cloreto de sódio (sal), caseinato de sódio, extrato de levedura, aroma natural de queijo Cheddar e aroma idêntico ao natural de queijo cheddar, estabilizantes polisfosfato de sódio e citrato de sódio, espessante goma carragenina, reguladores de acidez ácido cítrico e ácido acético, corante natural beta-caroteno e conservador ácido sórbico), etc. [reprodução a partir do website da marca]

Desconfio que os funcionários da Coop Casearia Valtiepido e o senhor mineiro Zé Mário não têm a menor ideia do que seja pelo menos metade dos ingredientes da lista acima! ☺

* As fábricas do parmigiano autêntico fazem parte de um consórcio. Para agendar uma visita, é preciso ligar para a central do consórcio. Eles então avisam qual fábrica está com visita programada e cuidam do agendamento. Por coincidência, a fábrica que nos ofereceram para visitar fica na cidadezinha de Maranello, nada menos que a sede da Ferrari. Como eu e o Vincenzo somos dois obcecados por comida e não damos a menor bola para carros e marcas, não chegamos nem perto do Museu da Ferrari.

** Para quem não sabe, nossos doutorados são em áreas que não têm absolutamente nada a ver com alimentação.

* Edição em 20 de maio de 2013 *

Para quem está em São Paulo: não deixe de visitar A Queijaria, recém-inaugurada loja especializada em queijos artesanais brasileiros.

A Usina de Belo Monte e a nossa despensa (e geladeira)

O título do post parece descabido, mas não é. De fato, a relação entre a polêmica usina hidrelétrica em início de construção no Estado do Pará e o que comemos não é muito direta. Mas ela existe. Não vou aqui entrar em detalhes sobre as questões problemáticas inerentes à construção da usina. Para quem tiver interesse, a internet está cheia de material informativo explicando o porquê de a usina ser um enorme desastre do ponto de vista sócio-ambiental*.

Como, então, a tão falada hidrelétrica está relacionada a nossos hábitos alimentares? O que muita gente não sabe, pois não é um ponto muito abordado pela imprensa tradicional, é que Belo Monte está localizada em uma região de produção de bauxita, que é matéria-prima essencial para a produção de alumínio, que, por sua vez, é necessário para a produção de uma série de embalagens utilizadas pela indústria alimentícia. A indústria do alumínio é grande consumidora de energia. Segundo dados do BNDES, mais de 6% da energia gerada no Brasil é destinada a essa indústria. Bem perto do local onde Belo Monte será erguida, existe uma fábrica da gigante norte-americana Alcoa, terceira maior produtora de alumínio do mundo. Logicamente, o alumínio que será produzido com a energia fornecida por Belo Monte servirá para a construção de várias outras coisas além de embalagens para conservar alimentos. Além disso, existem vários outros polos produtores de bauxita e alumínio ao redor do planeta. De qualquer forma, não acho que podemos deixar de estabelecer a conexão entre certos hábitos rotineiros e as consequências que eles têm do ponto de vista sócio-ambiental. Mesmo porque, se a bauxita não vier da energia fornecida por Belo Monte, virá de algum outro local muito provavelmente cheio de problemas também**.

Alguns casos óbvios do uso de alumínio são as latinhas de cerveja, refrigerante e suco, as tampinhas de garrafas de iogurte, embalagem de manteiga e tampas de potes de margarina. Um caso menos óbvio, mas muito importante devido à frequência com que aparece nos supermercados, são as embalagens Tetra Pak (para produtos U.H.T. ou longa vida), usadas para armazenar leite, creme de leite, molho de tomate, sucos, água de coco, entre vários outros produtos. Esse tipo de embalagem é composto por várias camadas, inclusive uma de alumínio. O fato de a embalagem Tetra Pak conter múltiplas camadas dificulta bastante a reciclagem.

Camadas de uma embalagem Tetra Pak: várias camadas de diferentes tipos de plástico, alumínio e papel.

Não sou tão utópica a ponto de achar ser possível viver completamente sem nunca comprar algo embalado em alumínio. Porém, ter consciência de que nossos hábitos têm um impacto e tentar evitar o desperdício já é um primeiro passo. Acredito plenamente que seja, sim, possível evitar pelo menos uma parte do que é armazenado nas embalagens metálicas. Uma mudança de hábito relativamente fácil de ser atingida, e que vale para qualquer tipo de embalagem, não só a que usa alumínio em sua composição, é evitar comprar porções individuais do produto em questão. Por exemplo, em vez de comprar porções individuais de iogurte ou de suco vendidas em garrafinhas ou potinhos de plástico com tampa de alumínio, por que não comprar uma embalagem de 1 litro? O desperdício de recursos naturais ainda existirá, mas em menor escala. No caso das latinhas de bebida, por que não reinstituir, pelo menos em algumas situações, o sistema de garrafas de vidro retornáveis, tão comum até a década de 80?

Eu sei que todos esses produtos que mencionei existem por conveniência e praticidade, ou seja, para “facilitar a vida”. Mas será que, em nome da conveniência e da praticidade, não estamos indo longe demais? Por que não dedicamos mais tempo na preparação de nossas refeições? Para sobrar mais tempo para assistir à televisão? Vale a pena, realmente?

O caso da água de coco em embalagem longa vida é um exemplo emblemático da situação absurda a que nossa sociedade chegou. Com tanto coco in natura disponível no Brasil, em sua própria “embalagem” biodegradável, não consigo entender o que leva uma pessoa a consumir a versão em caixinha. Cria-se um lixo completamente desnecessário e, ainda por cima, toma-se uma bebida provavelmente menos nutritiva, já que a água de coco em caixinha precisa ser esterilizada, além de ser repleta de conservantes. Mas, acima de tudo, a água de coco in natura é muito mais saborosa!

* Sugiro os websites das seguintes organizações: Movimento Xingu Vivo, Instituto Sócio-Ambiental, International Rivers e Amazon Watch.

** É verdade que o índice de reciclagem de latas de alumínio para bebidas tem crescido, o que é um ponto positivo. Apesar de a reciclagem em si também envolver gasto de energia, esse gasto é bem menor do que o necessário para a produção de alumínio virgem. No entanto, se a demanda por bebidas continuar aumentando, como o que vem acontecendo nos últimos anos, segundo dados do IBGE, a reciclagem sozinha não resolve o problema, pois não há latas suficientes no mercado. Ou seja, a demanda pela exploração de bauxita para a produção de alumínio para novas latas de bebida também vai continuar crescendo. Além disso, até onde eu sei, o índice de reciclagem é alto somente no caso das latinhas de bebidas e isso deve-se única e exclusivamente à existência, no Brasil, de mão-de-obra para a coleta. Outras embalagens de alumínio não têm o índice de reciclagem alto.