No verão de 2011, viajei com o marido e uns amigos para o Shenandoah National Park, no estado da Virginia, a cerca de uma hora de Washington DC. Ficamos todos hospedados em um hotel dentro do parque, o Skyland Resort. O hotel possui restaurante, mas nenhuma refeição está incluída na diária, nem mesmo o café da manhã. Na manhã seguinte à nossa chegada, um episódio que já rendeu muita conversa aconteceu após tomarmos café da manhã. A conta da refeição deve ser paga em um quiosque na porta do restaurante. Além de ponto de pagamento, o quiosque é também um café, servindo bebidas quentes, frutas e alguns pães. Estava na fila para quitar a conta com uma amiga e sua filha, que na época tinha cerca de três anos. Ao chegar no caixa, avistamos um enorme ‘porta-pirulitos’, que estava, obviamente, também no campo de visão da pequena de três anos. Preciso dizer qual foi a reação da menina? Com muita dificuldade, conseguimos pagar pelo café da manhã sem pagar também por um pirulito. Ao longo do dia, no entanto, o assunto voltou inúmeras vezes. A menina insistiu tanto para ganhar um pirulito que a mãe acabou cedendo e comprando um.

Minha amiga é uma mãe bastante consciente da importância de uma boa alimentação para sua filha. As refeições são quase sempre preparadas em casa e o acesso a doces e besteiras de modo geral é bastante controlado. Não estávamos em uma loja de doces nem em um supermercado.

Contei esta história a alguns amigos. O episódio sempre acaba virando uma discussão ‘filosófica’ sobre a presença do porta-pirulitos no balcão do quiosque. É ético o quiosque/café do hotel onde estávamos hospedadas colocar o porta-pirulito no balcão por onde todos que fazem refeição no restaurante têm que passar? O porta-pirulitos deveria ou não estar disponível ao lado do caixa?

As opiniões de quem ouve a história são variadas. Tem gente que acha que cabe aos pais, somente a eles, controlar seus filhos em uma situação como essa. Tem gente que acha que a prática de expor doces em estabelecimentos comerciais deveria ser controlada. Isto é, deveria haver alguma regulamentação protegendo os consumidores.

Sempre acho as conversas interessantíssimas. Considerando o histórico do blog, não é difícil imaginar que me encaixo no grupo dos que acham que o porta-pirulitos deveria passar LONGE do balcão do quiosque. Sei que muita gente acha a ideia absurda e impraticável. Talvez esteja sendo ingênua mesmo. Mas prefiro pensar que, na verdade, estou antecipando uma situação que, no futuro, será real. Há pesquisas sugerindo que o açúcar não é somente uma caloria desprovida de nutrientes e causador de cáries, como muitos já sabem. O açúcar seria em si é um veneno.

Segundo Robert Lustig, especialista em obesidade infantil da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia, há cada vez mais evidências de que o açúcar pode desencadear processos que conduzem à toxicidade hepática e várias outras doenças. A ideia é que o impacto do consumo excessivo de açúcar na saúde do ser humano vai além de fornecer calorias vazias que consumimos em excesso e nos fazem engordar. O açúcar induziria todas as doenças associadas à síndrome metabólica, incluindo hipertensão, resistência à insulina, altos níveis de triglicerídeos e diabetes. A obesidade não seria a causa, como muitos acreditam, de diabetes, hipertensão, etc, e sim um marcador de disfunção metabólica, ainda mais predominante que a obesidade. Lustig é defensor da regulamentação do açúcar, assim como o álcool e o cigarro são regulamentados. Além das questões de toxicidade citadas acima, Lustig menciona outros argumentos para justificar sua posição, como, por exemplo, o impacto negativo do açúcar na sociedade, em função dos altos custos econômicos, de assistência médica e humanos associados à síndrome metabólica.

Para mais informações sobre os argumentos de Robert Lustig, leia este artigo da New York Times Magazine, este da Eating Well ou este da Connect Well (todos em inglês).

Anúncios