O título do post parece descabido, mas não é. De fato, a relação entre a polêmica usina hidrelétrica em início de construção no Estado do Pará e o que comemos não é muito direta. Mas ela existe. Não vou aqui entrar em detalhes sobre as questões problemáticas inerentes à construção da usina. Para quem tiver interesse, a internet está cheia de material informativo explicando o porquê de a usina ser um enorme desastre do ponto de vista sócio-ambiental*.

Como, então, a tão falada hidrelétrica está relacionada a nossos hábitos alimentares? O que muita gente não sabe, pois não é um ponto muito abordado pela imprensa tradicional, é que Belo Monte está localizada em uma região de produção de bauxita, que é matéria-prima essencial para a produção de alumínio, que, por sua vez, é necessário para a produção de uma série de embalagens utilizadas pela indústria alimentícia. A indústria do alumínio é grande consumidora de energia. Segundo dados do BNDES, mais de 6% da energia gerada no Brasil é destinada a essa indústria. Bem perto do local onde Belo Monte será erguida, existe uma fábrica da gigante norte-americana Alcoa, terceira maior produtora de alumínio do mundo. Logicamente, o alumínio que será produzido com a energia fornecida por Belo Monte servirá para a construção de várias outras coisas além de embalagens para conservar alimentos. Além disso, existem vários outros polos produtores de bauxita e alumínio ao redor do planeta. De qualquer forma, não acho que podemos deixar de estabelecer a conexão entre certos hábitos rotineiros e as consequências que eles têm do ponto de vista sócio-ambiental. Mesmo porque, se a bauxita não vier da energia fornecida por Belo Monte, virá de algum outro local muito provavelmente cheio de problemas também**.

Alguns casos óbvios do uso de alumínio são as latinhas de cerveja, refrigerante e suco, as tampinhas de garrafas de iogurte, embalagem de manteiga e tampas de potes de margarina. Um caso menos óbvio, mas muito importante devido à frequência com que aparece nos supermercados, são as embalagens Tetra Pak (para produtos U.H.T. ou longa vida), usadas para armazenar leite, creme de leite, molho de tomate, sucos, água de coco, entre vários outros produtos. Esse tipo de embalagem é composto por várias camadas, inclusive uma de alumínio. O fato de a embalagem Tetra Pak conter múltiplas camadas dificulta bastante a reciclagem.

Camadas de uma embalagem Tetra Pak: várias camadas de diferentes tipos de plástico, alumínio e papel.

Não sou tão utópica a ponto de achar ser possível viver completamente sem nunca comprar algo embalado em alumínio. Porém, ter consciência de que nossos hábitos têm um impacto e tentar evitar o desperdício já é um primeiro passo. Acredito plenamente que seja, sim, possível evitar pelo menos uma parte do que é armazenado nas embalagens metálicas. Uma mudança de hábito relativamente fácil de ser atingida, e que vale para qualquer tipo de embalagem, não só a que usa alumínio em sua composição, é evitar comprar porções individuais do produto em questão. Por exemplo, em vez de comprar porções individuais de iogurte ou de suco vendidas em garrafinhas ou potinhos de plástico com tampa de alumínio, por que não comprar uma embalagem de 1 litro? O desperdício de recursos naturais ainda existirá, mas em menor escala. No caso das latinhas de bebida, por que não reinstituir, pelo menos em algumas situações, o sistema de garrafas de vidro retornáveis, tão comum até a década de 80?

Eu sei que todos esses produtos que mencionei existem por conveniência e praticidade, ou seja, para “facilitar a vida”. Mas será que, em nome da conveniência e da praticidade, não estamos indo longe demais? Por que não dedicamos mais tempo na preparação de nossas refeições? Para sobrar mais tempo para assistir à televisão? Vale a pena, realmente?

O caso da água de coco em embalagem longa vida é um exemplo emblemático da situação absurda a que nossa sociedade chegou. Com tanto coco in natura disponível no Brasil, em sua própria “embalagem” biodegradável, não consigo entender o que leva uma pessoa a consumir a versão em caixinha. Cria-se um lixo completamente desnecessário e, ainda por cima, toma-se uma bebida provavelmente menos nutritiva, já que a água de coco em caixinha precisa ser esterilizada, além de ser repleta de conservantes. Mas, acima de tudo, a água de coco in natura é muito mais saborosa!

* Sugiro os websites das seguintes organizações: Movimento Xingu Vivo, Instituto Sócio-Ambiental, International Rivers e Amazon Watch.

** É verdade que o índice de reciclagem de latas de alumínio para bebidas tem crescido, o que é um ponto positivo. Apesar de a reciclagem em si também envolver gasto de energia, esse gasto é bem menor do que o necessário para a produção de alumínio virgem. No entanto, se a demanda por bebidas continuar aumentando, como o que vem acontecendo nos últimos anos, segundo dados do IBGE, a reciclagem sozinha não resolve o problema, pois não há latas suficientes no mercado. Ou seja, a demanda pela exploração de bauxita para a produção de alumínio para novas latas de bebida também vai continuar crescendo. Além disso, até onde eu sei, o índice de reciclagem é alto somente no caso das latinhas de bebidas e isso deve-se única e exclusivamente à existência, no Brasil, de mão-de-obra para a coleta. Outras embalagens de alumínio não têm o índice de reciclagem alto.

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