O caso da soja como substituto de proteína animal – vale a pena?

Qualquer ser humano sensato que tome conhecimento de como os animais são tratados na indústria pecuária convencional dificilmente discordará de que algo precisa mudar urgentemente. Há problemas ambientais, sociais, para a saúde do ser humano e, claramente, para a saúde dos animais. Esta é uma questão de extrema importância no mundo atual, principalmente levando-se em consideração o fato de que o consumo mundial de proteína animal produzida de forma convencional só vem aumentando.

A impressão que eu tenho, contudo, é que parte da discussão sobre o tema está tomando rumos equivocados. Estou falando, especificamente, do incentivo ao consumo de produtos derivados da soja como possível solução para os problemas associados ao consumo de proteína animal. Sim, eu sei que grande parte da soja produzida mundialmente vira ração destinada justamente à alimentação de animais na indústria pecuária. Este é um problema sério, que precisa ser abordado, mas não estou me referindo à produção de soja para aquele fim. O que estou questionando aqui é o incentivo ao consumo direto pelo ser humano, mais precisamente o incentivo à substituição da proteína animal pela proteína vinda da soja, proposta por muitos como parte da solução dos vários problemas associados ao consumo excessivo de carne e leite. Mesmo que, pelo menos por enquanto, a maior parte da produção de soja não seja destinada ao consumo direto pelo ser humano, não acredito que a opção pela soja seja justificável. Afinal, a solução para um problema não pode apresentar problemas, até certo ponto, bem semelhantes: assim como na produção da proteína animal, a cadeia produtiva da soja é complicada em várias frentes.

Consumida por muitos vegetarianos e veganos, mas também por alguns carnívoros, a soja é uma leguminosa bastante versátil e que costuma ser utilizada como substituto da proteína animal na forma de ‘leite’, ‘linguiça’, ‘leite condensado’, ‘maionese’, ‘hambúrguer’, ‘iogurte’ e vários outros produtos.

Não consigo ver como positiva, do ponto de vista ambiental, a substituição da carne convencional por produtos derivados da soja, em grande parte geneticamente modificada e normalmente plantada em larga escala, em enormes fazendas de monocultura. Para quem não sabe, a monocultura (de qualquer vegetal) exaure o solo ao longo do tempo, exige grandes quantidades de agrotóxico*, bem como reduz a biodiversidade. Além disso, a soja, assim como a produção de carne de vaca no Brasil, é um dos vetores do processo de desmatamento na Amazônia. Será mesmo sensato consumir produtos derivados da monocultura da soja, dominada por gigantes multinacionais, como alternativa ambientalmente correta, mesmo em se tratando da tentativa de reduzir o consumo de proteína animal produzida convencionalmente?

No que concerne a aspectos sociais, o cultivo da soja também não fica muito atrás da criação de animais para abate e para a produção de leite e ovos. Além de o cultivo da leguminosa ser dominado por multinacionais e grandes proprietários de terras, afastando, assim, os pequenos produtores do campo, existem muitos relatos de trabalho análogo à escravidão em fazendas de soja no Brasil. Se considerarmos que o Brasil é o segundo maior produtor de soja do planeta, esses fatores sociais ganham ainda mais importância.

Há também uma polêmica em relação à saúde. É questionável o quão saudáveis são os substitutos de proteína animal feitos a partir da soja. Esses produtos costumam ser altamente processados, além de conter uma grande quantidade de aditivos para realçar o sabor e dar consistência de ‘carne’ ou o que quer que esteja sendo imitado. Além disso, o crescente uso da soja indiscriminadamente em países ocidentais, muitas vezes sob o argumento de que o grão vem sendo consumido por países asiáticos há séculos, é bastante controverso. Sim, é verdade que os asiáticos consomem produtos derivados da soja, mas a tradição é de produtos fermentados, como o molho shoyo, o tempeh e o missô, consumidos em poucas quantidades. Porém, até onde eu sei, os asiáticos não tentam substituir frango, nem maionese, iogurte, linguiça ou queijo (todos esses itens muitas vezes feitos de soja em suas versões veganas ou vegetarianas). Para entender um pouco sobre os potenciais problemas associados ao consumo da soja, clique aqui, para um artigo superficial da Folha de São Paulo, e aqui, para um artigo mais detalhado, porém em inglês, publicado na revista americana Utne.

Uma seleção de itens feitos com soja disponíveis no supermercado Whole Foods. Há substituto para leite, frios, iogurte, maionese, almôndega e queijo! Fotos: acervo pessoal.

Considerando as questões levantadas acima, não me parece sensato substituir a protéina animal produzida convencionalmente pela proteína vinda da soja. Em outras palavras, não adianta trocar o consumo de carne, leite e ovos pelo consumo da soja. Os problemas ambientais, sociais e de saúde associados à proteína animal também estão presentes, de forma semelhante, quando se trata da soja. A meu ver, o problema, na verdade, reside no modelo de produção agropecuário predominante. Isto é, na maneira como os animais são criados. Por hoje, termino por aqui, sem entrar na discussão de outros aspectos do consumo de proteína animal, isto é, aspectos éticos, detalhes sobre os potenciais benefícios ou malefícios à saúde, etc. Pretendo discutir o assunto em um futuro post dedicado exclusivamente a essas questões.

* Segundo a matéria de capa da Revista O Globo Amanhã do dia 28 de agosto de 2012, sobre agrotóxicos no Brasil, foram utilizados 12 litros de agrotóxico por hectare de soja na safra de 2010/2011!

Os orgânicos, de novo

Na semana passada, o jornal O Globo publicou uma matéria sobre a produção de alimentos orgânicos na revista O Globo Amanhã, um suplemento novo do jornal que é resultado da fusão dos antigos Terra e Razão Social. A matéria está bem bacana e apresenta informações interessantes que complementam o post que eu escrevi outro dia.

Segundo a reportagem, 200 mil famílias brasileiras vivem da agricultura orgânica, ocupando 1,5 milhão de hectares de terras no país, enquanto que a produção convencional ocupa nada menos que 50,8 milhões de hectares do solo brasileiro. O Estado do Rio tem uma produção de orgânicos bem pequena, com apenas 2.037 hectares destinados ao cultivo sem uso de agrotóxicos.

Capa da revista O Globo Amanhã

No post que escrevi recentemente, digo que a agricultura orgânica exige mão-de-obra mais intensiva que a agricultura convencional. Segundo a reportagem do Globo, são necessárias, em média, duas pessoas trabalhando por hectare para o cultivo sem agrotóxicos, enquanto que a agricultura convencional emprega um funcionário para até dois hectares. A matéria cita o caso da agricultora Raquel Araújo, que passa horas cuidando manualmente das frutas, verduras e legumes que cultiva em Petrópolis, fazendo o trabalho que uma pulverização de agrotóxicos resolveria em muito menos tempo.

De acordo com a revista, a diferença de preço entre produtos orgânicos e convencionais costuma ficar em 30%. Além da mão-de-obra mais intensiva já citada, a produção sem agrotóxicos precisa de mais tempo até a colheita. E não há incentivos fiscais para produtores orgânicos.

Para não perder o costume, termino o post levantando um questionamento relacionado com o conteúdo da reportagem do Globo. Já mencionei o assunto no texto sobre NY, ao falar da psicóloga americana que abandonou a vida em Manhattan para virar criadora de ovelhas e produtora de queijos artesanais, mas agora desenvolvo o argumento um pouco mais.

Será que o fato de a agricultura orgânica exigir uma mão-de-obra mais intensiva não é um ponto positivo? Além do óbvio benefício da criação de empregos, há também a questão da sustentabilidade (ou melhor, falta de) do modelo de agricultura dominante. O planeta, recentemente, deixou de ser predominantemente rural. Em outras palavras, há mais gente morando em centros urbanos do que no campo, e a tendência mundial é que esse êxodo continue a acontecer. A promessa de uma vida melhor na cidade faz com que muita gente que ainda mora no campo queira mudar de vida ou queira oferecer um futuro diferente para os filhos. Além de respirar e beber água, existe necessidade mais básica do que se alimentar? Quem vai produzir alimentos se não tiver gente o suficiente no campo? Não acredito em soluções tecnológicas patenteadas pela Monsanto, então precisamos mesmo é de mão-de-obra.

Sei que apresento esses questionamentos de uma posição muito privilegiada, sentada no meu confortável sofá, escutando música e digitando de um computador de última geração. Também sei que estou sendo até um tanto ingênua. Tento imaginar, mas nunca senti na pele o que é passar horas a fio trabalhando na lavoura, debaixo de sol quente. Não deve ser fácil. Mas isso não me impede de acreditar que, quando a produção de alimentos é praticada da maneira certa, ela pode ser uma atividade razoavelmente prazerosa e, sem dúvida, gratificante. E, por que não, nobre? O caso do Joel Salatin, dono da Polyface Farms, que ficou famoso ao ser retratado no livro O Dilema do Onívoro, do Michael Pollan, o guru dos foodies, é um ótimo exemplo. Já assisti a uma palestra do Joel Salatin e já visitei sua fazenda duas vezes. O sujeito adora o que faz, tem um orgulho enorme de seu trabalho e faz questão de passar sua experiência a outras gerações (o filho de Joel também trabalha na Polyface Farms). Os casos dos jovens fazendeiros retratados recentemente em uma matéria de capa da revista Flavor, uma publicação bimestral sobre agricultura sustentável aqui na região da Baía de Chesapeake, onde fica Washington DC, são mais exemplos de que a atividade agrícola pode ser uma experiência positiva. A revista, inclusive, relata alguns casos de fazendeiros que não passaram a infância e a juventude em fazendas, isto é, não tinham experiência com o cultivo de alimentos até se tornarem adultos. Há até estórias de fazendeiros com bacharelado ou até mestrado em disciplinas sem relação com agricultura!

Joel Salatin durante um tour por sua fazenda. Foto retirada do site da Polyface Farms.

Capa da revista Flavor com a nova geração de fazendeiros da Baía de Chesapeake. Foto do site youngfarmers.org.

Termino (agora para valer) reproduzindo a fala de um agricultor citado na reportagem do Globo. Luiz Carlos Basílio, de 52 anos, foi diagnosticado com intoxicação crônica causada pelo contato com agrotóxicos. Saiu da agricultura convencional e foi trabalhar na fazenda orgânica Sítio do Moinho, na região serrana do Rio.

“Eu não fazia ideia do mal que o veneno me causava. Misturava com as mãos mesmo, e abria minha quentinha do almoço ali mesmo, no meio da roça, com as mãos sujas, cheias de química. Quando vim trabalhar aqui é que passei a entender que o processo de produção agrícola podia ser totalmente diferente. Tive muita sorte em mudar de emprego. Hoje, tenho prazer em saber que estou colocando na mesa dos outros, e também na minha, um produto limpinho — comenta o pequeno agricultor”

A cesta de tomates

Muita gente fala sobre o problema das sacolas de supermercado e das leis proibindo as versões em plástico em várias cidades pelo mundo, enquanto que quase nenhuma atenção é dada às embalagens em si, isto é, o saco plástico que embala o arroz, o saco plástico e a caixa de papelão que embalam o cereal matinal, a lata que armazena a ervilha em conserva, e por aí vai. No post sobre o mercadinho Unpackaged, eu falei um pouco sobre essa questão das embalagens de alimentos, comentando sobre a enorme quantidade de recursos naturais necessários para produzir os sacos plásticos, latas, caixas, etc usados para embalar os alimentos e sobre a vida útil super curta que as embalagens têm.

Esse é um assunto que merece um post inteiro. Enquanto esse post não vem, fica aqui o relato de um dos hábitos que eu criei recentemente e que me permite evitar um pouco o desperdício de embalagem, mais especificamente, de latas de tomate em conserva. Este é o segundo verão aqui no hemisfério norte em que eu me organizo para preparar um estoque de base de molho de tomate em potes de vidro reaproveitados que me servirá durante o inverno, quando os tomates cultivados aqui na região estarão fora de época e somente tomates vindos de longe e sem gosto de tomate de verdade (se você nunca provou um tomate amadurecido no pé não sabe o que está perdendo) estarão disponíveis nas prateleiras dos supermercados. Fazer o molho em casa não dá muito trabalho (na verdade, eu somente fervo os tomates e os passo no liquificador – o tempero eu acrescento somente na hora de usar), é uma delícia e sai mais barato do que comprar um produto de qualidade equivalente já pronto. Eu uso tomates orgânicos super maduros, então não é justo comparar o preço da base de molho que faço em casa com uma lata de tomates convencionais comprada no supermercado. Ainda por cima, o processo de preparação da base de molho é divertidíssimo!

O estoque de base de molho deste ano já está pronto. Há alguns dias, compramos cerca de 10kg de tomates no farmers market. A foto abaixo é da parte dos 10kg de tomates que foi transportada na cestinha da minha bicicleta. A cesta com as cores vibrantes dos tomates vermelhos e amarelos comprados na barraca da fazenda Next Step Produce chamou a maior atenção na rua. Até foto pediram para tirar!

Foto: acervo pessoal

A questão dos orgânicos

Quando o assunto é comida orgânica, o que mais se ouve são comentários em relação ao preço. Sim, é verdade que os produtos orgânicos geralmente são mais caros do que os convencionais. Muitas pessoas perguntam o porquê disso, alegando que a diferença de preço é muito grande. Será que não faz mais sentido perguntar o contrário, isto é, por que o alimento convencional é tão mais barato?

Parte do valor que é cobrado ao consumidor pelo produto orgânico é usado pelo produtor para o pagamento do selo de certificação orgânica. O selo é concedido por um órgão certificador, que varia de país para país, e a taxa cobrada pela emissão do selo serve para cobrir despesas como fiscalização. Esse é um custo que não tem como ser evitado se o tipo de produção agrícola predominante continuar sendo o que costuma ser chamado de ‘convencional’, isto é, com uso de agrotóxicos.

Selos de certificação orgânica usados no Brasil, Reino Unido e EUA.

A diferença de preço, contudo, não se dá somente em função da certificação. O que mais explica o porquê de os orgânicos custarem mais que os convencionais?

A agricultura orgânica, de maneira geral, exige uma mão-de-obra mais intensiva do que a agricultura convencional. Isso, naturalmente, se reflete no preço final cobrado ao consumidor.

Mas a agricultura convencional deixa de fora vários custos associados ao tipo de cultivo que a sociedade acaba pagando de um jeito ou de outro. O preço de um produto convencional, por exemplo, não reflete o custo (nem o financeiro nem o emocional) das doenças causadas pelo uso de agrotóxicos, tanto em quem consome quanto em quem produz e está em constante contato com pesticidas e fertilizantes altamente tóxicos. Recentemente, o jornal O Globo publicou uma série de reportagens sobre o uso de agrotóxicos na região serrana do Estado do Rio. Vale a pena dar uma olhada. A situação é alarmante. A partir do link que eu estou colocando aqui, dá para ter acesso a outras matérias de série. Outro ponto importante no que diz respeito ao uso de agrotóxicos se refere especificamente a países fora do eixo União Europeia e dos EUA. Alguns produtos desenvolvidos por multinacionais do agronegócio europeias e norte-americanas foram banidos dos países do eixo do hemisfério norte, mas continuam sendo vendidos legalmente em outros países, inclusive o Brasil.

O preço de um produto convencional também não reflete o custo dos danos causados ao meio ambiente pelo uso de agrotóxicos. Quem paga para que os rios poluídos pelos resíduos de agrotóxico sejam limpos?

A agricultura convencional, principalmente a de larga escala, também não reflete em seu preço final as péssimas condições de muitos que trabalham na lavoura. Tanto no Brasil quanto nos EUA e na Europa, há muitos relatos de casos de trabalhadores agrícolas em situações análogas à escravidão. No Brasil, há casos em plantações de cana-de-açúcar, de arroz, de feijão e de soja, entre outras. Nos EUA, por exemplo, o Estado da Flórida, principalmente a região perto da cidade de Naples, é conhecido por casos de escravidão moderna em plantações de tomate. Já na Europa, há relatos de casos em vários países, incluindo Espanha, Itália e Reino Unido.

Barraca de lona sem higiene ou conforto onde dormiam trabalhadores de lavouras de feijão em MG resgatados pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Minas Gerais (SRTE/MG) em 2011. Foto retirada do site da ONG Repórter Brasil.

Os casos acima tendem a acontecer em fazendas grandes, onde a monocultura predomina. Quando compramos itens produzidos em pequena escala por agricultores que seguem o método orgânico (ou, pelo menos, usam somente os agrotóxicos estritamente necessários para o cultivo de algumas espécies em certos climas), a probabilidade de estarmos pagando um valor justo às pessoas que participaram do plantio e colheita do alimento é muito mais alta do que quando compramos algo no supermercado, ou até mesmo nas feiras livres brasileiras (que não necessariamente oferecem itens produzidos por agricultores familiares). O ideal é procurar uma feira de produtores, como as organizadas pelo Circuito Carioca de Feiras Orgânicas ou qualquer outra no resto do país.

Feira orgânica da Glória, no Rio. Foto da página Mistura Viva no Flickr.

Colheita de abobrinha na New Morning Farm, uma das minhas fazendas preferidas no farmers market de Dupont Circle, aqui em Washington DC. Foto da página da fazenda no facebook.

Termino esse post repetindo a pergunta que fiz no primeiro parágrafo e acrescentando outra: não faz mais sentido questionar por que o alimento convencional é muito mais barato do que o alimento orgânico, principalmente o produzido em pequena escala? Não seria mais justo os governos aumentarem o subsídio ao pequeno agricultor e diminuirem o subsídio dado aos grandes produtores de monoculturas?

As colheres de Giuseppe Roma e o removedor de casca de pão

Em uma recente ida à Itália para ver a família do marido (o que explica a falta de posts nas últimas semanas), visitamos a cidadezinha de Ostuni, na Puglia, perto da costa do Mar Adriático, e lá conhecemos Giuseppe Roma, um senhor simpatissíssimo que produz colheres de madeira artesanais há mais de 40 anos.

Colheres feitas por Giuseppe Roma. Foto: acervo pessoal.

O senhor Giuseppe adora falar sobre seu trabalho. Como eu e o meu marido curtimos muito esse tipo de experiência, a conversa durou bastante tempo. As colheres de Giuseppe são feitas com madeira de oliveiras, facilmente vistas das estradas da região da Puglia. As oliveiras da Puglia, contudo, são protegidas e não podem ser derrubadas. Giuseppe viaja a cada cinco anos para outra região no sul da Itália, a Calábria, onde a derrubada de oliveiras é permitida porque existe uma grande quantidade de árvores jovens e selvagens, a fim de comprar madeira para sua produção. Cada colher leva cerca de 12 horas para ser finalizada. Giuseppe reclama que muitos jovens, principalmente os de Bari, a capital da Puglia, pedem para pagar somente cinco euros por suas colheres, em vez da média de 18 euros cobrada pelo artesão.

Oficina de Giuseppe Roma. Foto: acervo pessoal.

Ferramentas usadas por Giuseppe Roma na confecção de suas colheres. Foto: acervo pessoal.

Saí da oficina de Giuseppe Roma encantada com o seu trabalho. Encontrar um artesão de utensílios de cozinha de alta qualidade em pleno ano de 2012 foi uma maravilha. Mas a visita também me fez refletir sobre os apetrechos de cozinha cada vez mais abundantes e descartáveis que encontramos hoje em dia nas lojas espalhadas pelo mundo. Acho uma tristeza vivermos em uma sociedade na qual grande parte da população não se importa de comprar utensílios produzidos em massa, provavelmente em alguma fábrica na China, por funcionários sem qualquer relação afetiva com aquilo que produzem. Ou, ainda pior, vivermos em uma sociedade cada vez mais ávida por uma infinidade de produtos de cozinha completamente supérfluos, que servem somente para deixar nossas casas cada vez mais entupidas. Será que realmente precisamos de um Krustbuster (um produto de plástico criado especialmente para retirar a casca de pães de forma), caixas específicas para guardar tomate ou cebola, um separador de filtros de papel para café, ou ainda um Dipr, uma colher específica para molhar biscoito recheado (do tipo redondinho) no leite? Acho que o produto que me deixa mais embasbacada é o removedor de casca de pão. Como pode alguém achar normal criar um produto tão específico e que ainda por cima serve para retirar e jogar fora algo perfeitamente comestível?

O Krustbuster em ação. Foto retirada do site http://www.unclutterer.com.

The milkman

Foto de Kelsey Felice Shupe

No último post, contei como deixei de tomar leite em pó e passei a tomar leite fresco e cru, facilmente encontrado nos farmers markets de Londres, onde morei até meados de 2009. Com a mudança para Washington DC, comecei a pesquisar sobre o assunto por aqui e descobri que a legislação do distrito não permite a venda de leite cru. Passei a buscar alternativas interessantes e acabei descobrindo que era possível receber leite fresco pasteurizado mas não-homogeneizado, em garrafas de vidro, diretamente na porta da minha casa. Rapidamente nos registramos no site da South Mountain Creamery e passamos a receber o leite todas as 5as feiras. Paga-se um depósito pelas garrafas de vidro, que é creditado de volta na sua conta quando a garrafa é devolvida.

Garrafa de vidro com leite não-homogeneizado da South Mountain Creamery. Foto de Kelsey Felice Shupe.

O esquema funcionou muito bem durante vários meses. Era divertidíssimo receber a visita semanal do milkman! Contudo, o inverno estava acabando e a ideia de receber o leite na porta de casa no auge do verão úmido e quente da costa leste americana não me parecia a mais sensata. Acabei optando por cancelar o serviço de entrega da South Mountain Creamery e passei a comprar um produto semelhante que passara a estar disponível na loja do Whole Foods perto da nossa casa. Na verdade, duas opções interessantes haviam aparecido no Whole Foods, ambas oferecendo leite de fazendas pequenas daqui da redondeza e embalado em garrafas de vidro retornáveis: Homestead Creamery e Trickling Springs Creamery. Tenho, desde então, comprado leite no Whole Foods. Pago $2 extras como depósito pela garrafa de vidro, que me são prontamente devolvidos no balcão de serviço ao consumidor quando levo as garrafas de volta.

Equipamento para esterilizar garrafas de vidro retornáveis da Trickling Springs Creamery. Foto do site da Creamery.

Preferiria continuar comprando o leite diretamente dos produtores, como fazia com a South Mountain Creamery, ou, até mesmo, comprar o leite da Clear Spring Creamery, que vende seus produtos no farmers market de Dupont Circle, o qual frequentamos todo domingo. A desvantagem da primeira opção é a complicada logística de receber o leite na porta de casa durante os meses de intenso calor. A segunda opção não é considerada aqui em casa porque o leite é vendido em garrafas de plástico descartáveis, criando lixo desnecessário.

ps: Se você conhece algum serviço semelhante ao da South Mountain Creamery em qualquer outra cidade ou país, ou algum produto vendido no mesmo esquema do Whole Foods, deixe um comentário!

Do leite em pó ao leite cru

Leite da fazenda Hurdlebrook. Foto de Andy Mahoney.

Quando saí do Rio para morar em Londres, há quase nove anos, carreguei comigo o hábito de tomar leite em pó. Meus amigos estrangeiros não conseguiam me entender, pois a oferta de leite fresco em Londres, ao contrário do Rio, é muito ampla e a de leite em pó é bem limitada. Há garrafinhas plásticas de leite fresco em todos os supermercados e também em muitas lojinhas de conveniência. Durante um tempo, não houve jeito: eu estava acostumada com o gosto do leite em pó e me agradava a conveniência de não ter que ficar comprando leite em poucas quantidades com receio de que estragasse.

Aos poucos, meu interesse por alimentação foi aumentando e eu abandonei o leite em pó. Acostumei-me com o leite fresco e não houve volta. Cheguei em Londres tomando leite em pó e saí tomando leite cru (isto é, em estado natural, não-pasteurizado) e não-homogeneizado, comprado direto do produtor no farmers market de Islington (uma das opções era a o leite da fazenda Hurdlebrook, da foto acima).

Se é verdade eu não sei, mas dizem que a pasteurização (em outras palavras, submeter o leite a alta temperatura e logo depois esfriá-lo) mata as bactérias que podem causar problemas de saúde ao ser humano, mas também mata as bactérias benéficas ao organismo. Muitos argumentam que a homogeneização também traz consequências negativas. E não apresenta nenhum beneficio à saúde, ao contrário do que pode ser argumentado em relação à pasteurização. O processo de homogeneização, que é algo como passar o leite por um aparelho semelhante a um coador com buracos minúsculos, reduzindo, assim, os glóbulos de gordura, é conduzido, principalmente, para evitar a “inconveniência” de ter que agitar a garrafa de leite antes de usá-la, a fim de diluir a gordura. Entretanto, a digestão dos glóbulos reduzidos não se dá da mesma forma que a digestão dos glóbulos in natura, isto é, dos glóbulos do leite não-homogeneizado. Muitos argumentam que a digestão do leite homogeneizado é dificultada em função do tamanho artificialmente reduzido dos glóbulos. Como o processo de homogeneização é amplamente utilizado em muitos países, talvez esteja aí a razão pela qual a intolerância à lactose se torna cada vez mais comum. Será? Eu tendo a acreditar que sim.

Quando me mudei para Washington DC, parei de ter acesso a leite cru. A legislação aqui nos EUA é diferente da legislação no Reino Unido. No Reino Unido, a venda de leite cru é permitida, desde que seja conduzida por quem produz o leite. Em outras palavras, somente o fazendeiro responsável pela produção do leite cru pode vendê-lo. O comércio não pode ser feito por terceiros. Isso faz com que somente seja possível encontrar leite cru em farmers markets, onde os produtores vendem tudo direto ao consumidor. Nos EUA, a legislação varia de estado para estado. Na Califórnia, por exemplo, é permitido comercializar leite não-pasteurizado sem restrições. Em outros estados, o consumo é permitido caso você seja dono da vaca, mas a comercialização não é permitida (as fazendas, então, oferecem um esquema de co-participação na propriedade das vacas, permitindo que pessoas comuns possam consumir o leite). Em alguns estados, nada é permitido, nem o consumo nem a comercialização. Este é o caso de Washington DC, que não é estado, mas tem sua própria legislação. Já ouvi dizer que existe um mercado negro de leite cru por aqui, mas nunca procurei me informar melhor, pois estou satisfeita com o leite a que tenho acesso, do qual falarei no próximo post, pois este já esta grande demais 🙂

O “táxi da compostagem”

O que fazer com as cascas e restos de frutas e verduras quando se mora em um apartamento compacto sem varanda ou área de serviço, isto é, sem espaço para fazer compostagem em casa? Quando nos mudamos para o micro-apartamento onde moramos atualmente, busquei uma solução para o descarte de lixo orgânico. Participei de um workshop sobre o assunto e pesquisei opções na internet, mas não obtive sucesso. Realmente não temos espaço para uma composteira convencional. Além disso, não teríamos quem cuidasse das minhocas durante viagens mais longas caso optássemos por um minhocário.

Minimizei o problema ao começar a fazer caldo de vegetais com cascas e aparas não-comestíveis, inspirada por este post do blog La Cucinetta. Apesar de dar sobrevida a algo que iria diretamente para o lixo, ainda não estava satisfeita. Ficava imaginando como seria bom viver em San Francisco, na California, onde residências e estabelecimentos comerciais são obrigados por lei a separar o lixo orgânico do reciclável, ambos coletados pela prefeitura, ou no bairro de Islington, no norte de Londres, onde a sub-prefeitura oferece aos residentes a coleta de lixo orgânico. Aqui em Washington DC, não há nenhum programa governamental parecido com os casos acima.

Há mais de um ano, felizmente, temos a sorte de contar com a iniciativa privada para preencher a lacuna deixada pelo governo. A micro-empresa Compost Cab oferece dois tipos de serviço: coleta semanal de material compostável em residências (daí o nome dado à empresa), ao custo de $8 por semana, ou um posto de coleta no farmers market de Dupont Circle, para onde as pessoas podem levar seu material compostável e depositá-lo na caçamba do “taxi da compostagem”, ao custo de $2 por entrega.

Como frequentamos o farmers market de Dupont Circle todos os domingos, usamos o posto de coleta por lá. Temos na cozinha uma lata de metal com filtro, onde armazenamos os restos de comida durante a semana. Sim, dá um pouco mais de trabalho do que jogar tudo na lixeira convencional, mas já incorporamos a separação do lixo orgânico à nossa rotina e o esquema tem funcionado muito bem. Os clientes da Compost Cab que optam pela coleta em casa recebem um espécie de balde hermético para armazenar o lixo até o dia em que o “táxi” passa pelo bairro.

Jeremy Brosowsky, o fundador da Compost Cab, e seu “táxi” no farmers market de Dupont Circle. Foto de Alex Brandon, AP.

Muita gente me pergunta se eu não acho um absurdo pagar para que cuidem do meu “lixo”. Honestamente, acho que o serviço deveria ser oferecido pela prefeitura. Como isso não acontece, pago a taxa da Compost Cab com prazer. E o que a micro-empresa faz com tanto material compostável? A Compost Cab faz somente o que seu nome sugere: transporta o lixo orgânico, que é doado para fazendas urbanas da região metropolitana de Washington DC.

Como se livrar de supermercados convencionais – Parte II

No último post, escrevi sobre a Park Slope Food Coop, dizendo que sinto vontade de me mudar para o Brooklyn, em Nova York, toda vez que visito a cooperativa. É verdade. No entanto, melhor ainda seria se eu pudesse frequentar a loja Unpackaged, um mercadinho no centro de Londres que, como o nome sugere, vende praticamente tudo a granel, isto é, sem estar pré-embalado. Enquanto a Park Slope Food Coop cobra cerca de 30% a menos que os supermercados convencionais, a Unpackaged oferece descontos para os clientes que levam a sua própria embalagem!

Tudo começou quando a fundadora, Catherine Conway, percebeu que queria fazer suas compras a granel, evitando desperdícios no que diz respeito à embalagem (pensa bem, a quantidade de recursos naturais – papel, plástico, tinta, etc – usada na produção de embalagens de alimentos é enorme, sendo que as embalagens em si têm a vida útil curtíssima), bem como no que concerne aos alimentos propriamente ditos, já que, por meio da compra a granel, pode-se adquirir a quantidade exata desejada (como, por exemplo, quantidades menores de algo que não é consumido com frequência). Como não encontrou um lugar onde pudesse fazer suas compras desse jeito, a Catharine resolveu abrir o próprio negócio. Inicialmente uma barraca em um mercado de rua, a Unpackaged rapidamente cresceu e mudou-se para uma antiga loja de queijos charmosérrima no centro de Londres.

Praticamente tudo na Unpackaged é vendido a granel. A oferta de produtos vai de grãos, nozes, temperos, frutas e legumes a bolos caseiros, biscoitos e até azeite, vinagre e vinho! Além, é claro, de vários produtos de limpeza e de higiene pessoal. O cliente leva suas próprias embalagens (vale tudo: sacos de pano, sacos plásticos, potes de vidro, potes de plástico, etc). Caso apareça alguém sem um recipiente para as próprias compras, a loja oferece sacos novos (ou, no caso dos produtos de limpeza, garrafas do próprio produtos reutilizadas). Mas o cliente sem embalagem sai da loja sem receber o desconto dado aos clientes que vão equipados! Ou seja, a loja realmente incentiva a reutilização do sacos e potes já existentes no planeta. Infelizmente, acho que ainda estão para inventar incentivo melhor do que o financeiro.

Parte dos itens secos disponíveis na Unpackaged. Foto retirada do site da loja.

Barril onde são armazenados os azeites e vinagres da loja. Foto retirada do site da Unpackaged.

Além de a Unpackaged oferecer muita coisa orgânica e com o selo de comércio justo, não vende nada que, para chegar a Londres, tenha sido transportado de avião, utilizando mais combustível do que os itens que chegam de navio cargueiro ou trem. Os itens produzidos na própria Inglaterra são priorizados, sempre.

A própria Catherine trabalha atrás do lindo balcão da Unpackaged com frequência. A combinação da personalidade extrovertida e carismática da Catharine com uma seleção de clientes cativos interessadíssimos no modelo de funcionamento do negócio cria um ambiente super agradável. Imagino que fazer compras na Unpackaged seja como fazer compras em um armazém de cidade de interior, onde os funcionários conhecem os clientes e estabelece-se uma relação de camaradagem.

Interior da loja. Foto retirada do site da Unpackaged.

Tive o privilégio de fazer compras na Unpackaged inúmeras vezes na época em que morava em Londres. Quem for visitar a cidade e tiver interesse em uma forma diferente de fazer compras de supermercado, vale muito a pena dar uma passada na Unpackaged. A loja está para mudar de endereço em breve. Mas, por enquanto, segue no número 42 da Amwell Street, EC1R 1XT.

Como se livrar de supermercados convencionais – Parte I

Imagine fazer compras em um lugar onde se paga cerca de 30% a menos do que em um supermercado tradicional, onde se tem o direito de opinar sobre o que é vendido e, de quebra, ainda tem gente para cuidar do seu filho enquanto você faz suas compras. Utopia? Não. A cooperativa de alimentos Park Slope Food Coop, localizada no Brooklyn, em Nova York, funciona assim. Sonho de consumo de muita gente, a cooperativa de Park Slope se destaca entre as muitas cooperativas existentes nos EUA.

Para que tudo isso funcione, contudo, há uma contraparte: somente quem trabalha cerca de três horas por mês na cooperativa tem direito de fazer compras por lá. O trabalho pode ser de vários tipos: repor produtos nas prateleiras, receber caixas que chegam dos fornecedores, atuar nos caixas, tomar conta dos filhos de quem também está em seu turno mensal ou fazendo compras em uma espécie de “mini-creche”, ou até mesmo fazer serviço de limpeza (que, por ser menos agradável do que as outras funções, exige uma quantidade menor de horas). Com isso, a cooperativa tem uma quantidade de mão-de-obra gratuita suficiente para precisar pagar o salário de somente um pequeno número de funcionários, o que permite que eles cobrem preços bem abaixo daqueles cobrados por supermercados convencionais. Como os membros têm direito a opinar sobre quais itens serão vendidos e o modelo de funcionamento da cooperativa atrai um público razoavelmente consciente dos impactos sociais e ambientais das nossas compras rotineiras, os itens disponíveis refletem, de maneira geral, essa preocupação sócio-ambiental dos sócios. Os produtos de limpeza, por exemplo, costumam conter substâncias não muito tóxicas, os produtos de higiene pessoal contêm aromas naturais em vez de sintéticos, e uma grande quantidade de itens orgânicos, locais ou com o selo de comércio justo, costuma estar disponível. Os sócios também opinam sobre como administrar a cooperativa. O resultado disso tudo é um local que se esforça para reciclar e que não fornece sacolas para os compradores (nem para quem queira pagar; elas simplesmente não estão disponíveis, nem de plástico nem de papel). Enfim, a Park Slope Food Coop é o paraíso dos naturebas e hippies de plantão.

Existem regras que os membros devem seguir, que parecem ser aplicadas com frequência. Um sócio não pode, por exemplo, fazer compras para todas as pessoas com quem divide o lar (isto se aplica a cônjuges, amigos ou qualquer outra pessoa com quem o sócio divida a despensa e a geladeira) e quem falta ao turno algumas vezes é suspenso até conseguir repor as sessões não-comparecidas. É possível trocar o horário com outro sócio e, para isso, existe um quadro de avisos para troca de informação. Não só pessoas que moram perto da Park Slope são sócios. A cooperativa é tão boa que tem gente que vai de longe contribuir com as três horas mensais e fazer suas compras por lá. A entrada é bastante controlada: não-sócios não podem entrar, a não ser que estejam acompanhados de um sócio e retirem um crachá de visitante na recepção. É uma pena, apesar de perfeitamente compreensível. Afinal, a cooperativa é famosíssima e seria uma confusão enorme caso não-sócios pudessem entrar sem restrição. Por sorte (meu irmão mora no Brooklyn e é sócio da Park Slope há vários anos), tive a oportunidade de visitar a cooperativa algumas vezes. Sempre saio de lá com vontade de me mudar para o Brooklyn!

Na parte II de ‘Como se livrar de supermercados convencionais’, falarei de uma lojinha sensacional no centro de Londres, a Unpackaged.