Na semana passada, o jornal O Globo publicou uma matéria sobre a produção de alimentos orgânicos na revista O Globo Amanhã, um suplemento novo do jornal que é resultado da fusão dos antigos Terra e Razão Social. A matéria está bem bacana e apresenta informações interessantes que complementam o post que eu escrevi outro dia.

Segundo a reportagem, 200 mil famílias brasileiras vivem da agricultura orgânica, ocupando 1,5 milhão de hectares de terras no país, enquanto que a produção convencional ocupa nada menos que 50,8 milhões de hectares do solo brasileiro. O Estado do Rio tem uma produção de orgânicos bem pequena, com apenas 2.037 hectares destinados ao cultivo sem uso de agrotóxicos.

Capa da revista O Globo Amanhã

No post que escrevi recentemente, digo que a agricultura orgânica exige mão-de-obra mais intensiva que a agricultura convencional. Segundo a reportagem do Globo, são necessárias, em média, duas pessoas trabalhando por hectare para o cultivo sem agrotóxicos, enquanto que a agricultura convencional emprega um funcionário para até dois hectares. A matéria cita o caso da agricultora Raquel Araújo, que passa horas cuidando manualmente das frutas, verduras e legumes que cultiva em Petrópolis, fazendo o trabalho que uma pulverização de agrotóxicos resolveria em muito menos tempo.

De acordo com a revista, a diferença de preço entre produtos orgânicos e convencionais costuma ficar em 30%. Além da mão-de-obra mais intensiva já citada, a produção sem agrotóxicos precisa de mais tempo até a colheita. E não há incentivos fiscais para produtores orgânicos.

Para não perder o costume, termino o post levantando um questionamento relacionado com o conteúdo da reportagem do Globo. Já mencionei o assunto no texto sobre NY, ao falar da psicóloga americana que abandonou a vida em Manhattan para virar criadora de ovelhas e produtora de queijos artesanais, mas agora desenvolvo o argumento um pouco mais.

Será que o fato de a agricultura orgânica exigir uma mão-de-obra mais intensiva não é um ponto positivo? Além do óbvio benefício da criação de empregos, há também a questão da sustentabilidade (ou melhor, falta de) do modelo de agricultura dominante. O planeta, recentemente, deixou de ser predominantemente rural. Em outras palavras, há mais gente morando em centros urbanos do que no campo, e a tendência mundial é que esse êxodo continue a acontecer. A promessa de uma vida melhor na cidade faz com que muita gente que ainda mora no campo queira mudar de vida ou queira oferecer um futuro diferente para os filhos. Além de respirar e beber água, existe necessidade mais básica do que se alimentar? Quem vai produzir alimentos se não tiver gente o suficiente no campo? Não acredito em soluções tecnológicas patenteadas pela Monsanto, então precisamos mesmo é de mão-de-obra.

Sei que apresento esses questionamentos de uma posição muito privilegiada, sentada no meu confortável sofá, escutando música e digitando de um computador de última geração. Também sei que estou sendo até um tanto ingênua. Tento imaginar, mas nunca senti na pele o que é passar horas a fio trabalhando na lavoura, debaixo de sol quente. Não deve ser fácil. Mas isso não me impede de acreditar que, quando a produção de alimentos é praticada da maneira certa, ela pode ser uma atividade razoavelmente prazerosa e, sem dúvida, gratificante. E, por que não, nobre? O caso do Joel Salatin, dono da Polyface Farms, que ficou famoso ao ser retratado no livro O Dilema do Onívoro, do Michael Pollan, o guru dos foodies, é um ótimo exemplo. Já assisti a uma palestra do Joel Salatin e já visitei sua fazenda duas vezes. O sujeito adora o que faz, tem um orgulho enorme de seu trabalho e faz questão de passar sua experiência a outras gerações (o filho de Joel também trabalha na Polyface Farms). Os casos dos jovens fazendeiros retratados recentemente em uma matéria de capa da revista Flavor, uma publicação bimestral sobre agricultura sustentável aqui na região da Baía de Chesapeake, onde fica Washington DC, são mais exemplos de que a atividade agrícola pode ser uma experiência positiva. A revista, inclusive, relata alguns casos de fazendeiros que não passaram a infância e a juventude em fazendas, isto é, não tinham experiência com o cultivo de alimentos até se tornarem adultos. Há até estórias de fazendeiros com bacharelado ou até mestrado em disciplinas sem relação com agricultura!

Joel Salatin durante um tour por sua fazenda. Foto retirada do site da Polyface Farms.

Capa da revista Flavor com a nova geração de fazendeiros da Baía de Chesapeake. Foto do site youngfarmers.org.

Termino (agora para valer) reproduzindo a fala de um agricultor citado na reportagem do Globo. Luiz Carlos Basílio, de 52 anos, foi diagnosticado com intoxicação crônica causada pelo contato com agrotóxicos. Saiu da agricultura convencional e foi trabalhar na fazenda orgânica Sítio do Moinho, na região serrana do Rio.

“Eu não fazia ideia do mal que o veneno me causava. Misturava com as mãos mesmo, e abria minha quentinha do almoço ali mesmo, no meio da roça, com as mãos sujas, cheias de química. Quando vim trabalhar aqui é que passei a entender que o processo de produção agrícola podia ser totalmente diferente. Tive muita sorte em mudar de emprego. Hoje, tenho prazer em saber que estou colocando na mesa dos outros, e também na minha, um produto limpinho — comenta o pequeno agricultor”

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