Imagine fazer compras em um lugar onde se paga cerca de 30% a menos do que em um supermercado tradicional, onde se tem o direito de opinar sobre o que é vendido e, de quebra, ainda tem gente para cuidar do seu filho enquanto você faz suas compras. Utopia? Não. A cooperativa de alimentos Park Slope Food Coop, localizada no Brooklyn, em Nova York, funciona assim. Sonho de consumo de muita gente, a cooperativa de Park Slope se destaca entre as muitas cooperativas existentes nos EUA.

Para que tudo isso funcione, contudo, há uma contraparte: somente quem trabalha cerca de três horas por mês na cooperativa tem direito de fazer compras por lá. O trabalho pode ser de vários tipos: repor produtos nas prateleiras, receber caixas que chegam dos fornecedores, atuar nos caixas, tomar conta dos filhos de quem também está em seu turno mensal ou fazendo compras em uma espécie de “mini-creche”, ou até mesmo fazer serviço de limpeza (que, por ser menos agradável do que as outras funções, exige uma quantidade menor de horas). Com isso, a cooperativa tem uma quantidade de mão-de-obra gratuita suficiente para precisar pagar o salário de somente um pequeno número de funcionários, o que permite que eles cobrem preços bem abaixo daqueles cobrados por supermercados convencionais. Como os membros têm direito a opinar sobre quais itens serão vendidos e o modelo de funcionamento da cooperativa atrai um público razoavelmente consciente dos impactos sociais e ambientais das nossas compras rotineiras, os itens disponíveis refletem, de maneira geral, essa preocupação sócio-ambiental dos sócios. Os produtos de limpeza, por exemplo, costumam conter substâncias não muito tóxicas, os produtos de higiene pessoal contêm aromas naturais em vez de sintéticos, e uma grande quantidade de itens orgânicos, locais ou com o selo de comércio justo, costuma estar disponível. Os sócios também opinam sobre como administrar a cooperativa. O resultado disso tudo é um local que se esforça para reciclar e que não fornece sacolas para os compradores (nem para quem queira pagar; elas simplesmente não estão disponíveis, nem de plástico nem de papel). Enfim, a Park Slope Food Coop é o paraíso dos naturebas e hippies de plantão.

Existem regras que os membros devem seguir, que parecem ser aplicadas com frequência. Um sócio não pode, por exemplo, fazer compras para todas as pessoas com quem divide o lar (isto se aplica a cônjuges, amigos ou qualquer outra pessoa com quem o sócio divida a despensa e a geladeira) e quem falta ao turno algumas vezes é suspenso até conseguir repor as sessões não-comparecidas. É possível trocar o horário com outro sócio e, para isso, existe um quadro de avisos para troca de informação. Não só pessoas que moram perto da Park Slope são sócios. A cooperativa é tão boa que tem gente que vai de longe contribuir com as três horas mensais e fazer suas compras por lá. A entrada é bastante controlada: não-sócios não podem entrar, a não ser que estejam acompanhados de um sócio e retirem um crachá de visitante na recepção. É uma pena, apesar de perfeitamente compreensível. Afinal, a cooperativa é famosíssima e seria uma confusão enorme caso não-sócios pudessem entrar sem restrição. Por sorte (meu irmão mora no Brooklyn e é sócio da Park Slope há vários anos), tive a oportunidade de visitar a cooperativa algumas vezes. Sempre saio de lá com vontade de me mudar para o Brooklyn!

Na parte II de ‘Como se livrar de supermercados convencionais’, falarei de uma lojinha sensacional no centro de Londres, a Unpackaged.

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