As fotos do cabeçalho do blog foram tiradas na minha última ida a Nova York. A viagem me fez lembrar de um dos melhores documentários sobre o sistema de produção e distribuição de alimentos que já vi até agora. O que precisa ser feito para alimentar — todos os dias — uma metrópole onde pouquíssimo é plantado e produzido? 24 Hours, 24 Million Meals: Feeding New York mostra os bastidores do que é feito diariamente para que oito milhões de novaiorquinos possam fazer três refeições ao longo do dia. Boa parte do trabalho para que os moradores (e turistas!) da cidade se alimentem acontece, na realidade, de madrugada. O documentário segue a rotina de várias pessoas envolvidas nesse gigantesco e complexo esquema de produção e/ou distribuição de alimentos que passa despercebido por grande parte da população, que não faz a menor idéia de onde vem aquilo que come.

O filme mostra, por exemplo, o trabalho de um funcionário do Hunts Point Food Distribution Center, o maior mercado atacado de frutas e verduras do mundo, que recebe, por mar, terra e ar, produtos frescos de 55 países e 49 estados norte-americanos. Hunts Point fornece nada menos que 80% das frutas e verduras que são utilizadas diariamente em Nova York. Num caos organizado, o mercado tem dez mil funcionários e três quilômetros de plataformas de carga.

O trabalho de Susan, no porto de Nova Jersey, é impressionante. Susan é responsável pela logística necessária para que vinte milhões de bananas vindas do Equador em um navio cargueiro sejam descarregadas e distribuídas aos revendedores. É tanta banana que o processo para descarregar o navio leva dois dias inteiros! Uma barraca de rua chega a vender 800 bananas por dia, a 35 centavos de dólar cada. A banana é, atualmente, a fruta mais barata e a mais consumida nos EUA.

As câmeras seguem ainda Karen Weinberg, ex-psicóloga organizacional e ex-moradora de Manhattan que abandonou a vida urbana e os altos salários para morar em uma fazenda de ovelhas no norte do estado de Nova York, na fronteira com Vermont. Produtora de queijos artesanais, a fazendeira vai a Manhattan duas vezes por semana, viajando durante a noite, para participar do mercado de produtores Greenmarket, na Union Square.

Karen Weinberg fazendo queijo artesanal. Foto de Jason Houston.

Usando 500kg de massa de pão diariamente, os funcionários da Amy’s Bread, uma fábrica de pães artesanais com lojas próprias, trabalham madrugada adentro. De lá, saem, entre outras coisas, mil pães ciabattas feitos a mão e que, às três da manhã, vão diretamente para a confeitaria Financier, onde serão transformados em sanduíches para serem vendidos ao longo do dia.

Um dos pães artesanais da Amy’s Bread. Foto retirada do site da fábrica de pães.

O trabalho de um comerciante de trufas brancas italianas é uma luta contra o tempo. Em menos de 24 horas, ele participa da colheita das trufas na cidade de Alba, no norte da Itália, e viaja a Nova York para vendê-las o mais rápido possível, já que as trufas perdem qualidade e, consequentemente, valor, em pouquíssimo tempo. Na curta temporada da iguaria, que não passa de dez semanas, o comerciante chega a vender um milhão de dólares em trufas!

Através de estórias envolvendo itens variados, como a fruta tropical que virou, ao longo das últimas décadas, alimento do dia-a-dia no hemisfério norte, passando por pães artesanais usados para fazer parte dos milhares de sanduíches consumidos por novaiorquinos que trabalham sem parar, assim como as trufas vindas diretamente da Itália para o prato dos mais privilegiados, o documentário nos permite entender um pouco sobre o que é feito para alimentar uma metrópole.

O filme foca na mão-de-obra e no tempo levado em cada etapa de produção ou distribuição de algo, isto é, na escala de grandeza dessa dança de oferta e demanda que mantém a cidade em funcionamento. É tudo fascinante. No entanto, não consigo deixar de pensar em questões relacionadas, porém não abordadas no filme. Será que é viável, do ponto de vista ambiental, continuar transportando bananas pelo mundo para que possam ser consumidas diariamente por gente que nunca viu uma bananeira? Seria muita utopia achar que banana no hemisfério norte deve ser tratada, até certo ponto, de maneira semelhante à trufa, isto é, como uma iguaria (obviamente não tão cara quanto a trufa, mas certamente bem mais cara que 35 centavos a unidade) a ser consumida ocasionalmente? Até quando peixes em risco de extinção, como o Red Snapper (Cioba), foco do trecho do filme sobre o mercado de peixes New Fulton, uma grande ‘geladeira’ responsável pela venda de boa parte dos peixes consumidos em Nova York, continuarão sendo pescados e comercializados porque existe demanda da parte do consumidor? Até quando a maioria dos restaurantes vai continuar elaborando seus menus sem levar em consideração a distância percorrida pelos vegetais servidos em seus pratos, criando, assim, demanda para que o Hunts Point Distribution Center continue importando aspargos e pimentão do hemisfério sul quando as condições climáticas não permitem que estes itens sejam plantados no hemisfério norte? Quando os governos passarão a oferecer incentivos para pessoas como a Karen Weinberg, a ex-psicóloga que virou criadora de ovelhas, e assim tornar o trabalho em fazendas algo nobre? E, por tabela, diminuir a pressão sobre as grandes cidades, com capacidade mais do que esgotada?

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